Critica o modelo de venture capital e propõe uma abordagem baseada na escuta, na colaboração e no financiamento com clientes. "Não associamos poder a responsabilidade e serviço", conclui.
Francisco Santolo, CEO da Scalabl, foi entrevistado pelo La Estrella de Panamá em uma conversa profunda sobre sua visão que rompe velhos paradigmas do empreendedorismo. Santolo, reconhecido pela Forbes em 2017 como o "hacker das startups", cofundou mais de 50 empresas e ajudou a criar mais de 500 empreendimentos através da metodologia Scalabl, com operações em mais de 20 países.
Sua abordagem surgiu a partir das novas metodologias que apareceram por volta do ano 2000. Em vez de buscar capital como primeiro passo, Santolo propõe começar encontrando clientes para entender suas necessidades reais, conectar-se com outros atores para resolver problemas concretos e depois vender, financiando-se diretamente com os próprios clientes. É um modelo que inverte a lógica tradicional do empreendedorismo.
Santolo cita Steve Blank e "The Lean Startup Method" como bases fundamentais do seu pensamento. O desenvolvimento de clientes deve se basear em hipóteses, não em suposições. O foco deve estar em entender os desejos e dores do consumidor mediante perguntas abertas, sem assumir que já se sabe o que o mercado precisa. Essa humildade diante do mercado é, segundo ele, a diferença entre empreendedores que escalam e os que fracassam.
Sobre a América Latina e o Panamá em particular, Santolo reconhece a desigualdade e os desafios sociais da região, mas vê oportunidades enormes para empreendedores. O Panamá oferece estabilidade política e econômica, vantagens geográficas como hub de conexão entre continentes e uma estrutura tributária conveniente para os negócios. "Os problemas são oportunidades", afirma com convicção.
Na entrevista, Santolo se aprofunda na importância do networking. O sucesso humano, sustenta, depende fundamentalmente dos outros. Os negócios exigem ouvir ativamente e se relacionar com diferentes atores: clientes, fornecedores, aliados, mentores. "Nossas conquistas dependem dos outros", diz, desafiando a narrativa do empreendedor solitário que tudo pode.
Uma das seções mais contundentes da entrevista é sua crítica ao venture capital. Santolo argumenta que os governos latino-americanos copiam o modelo do Silicon Valley sem entendê-lo em profundidade. As avaliações de startups se baseiam em expectativas futuras, não em lucros reais. Os intermediários financeiros lucram com comissões, criando incentivos perversos que empurram as empresas para crescimentos irrealistas e muitas vezes insustentáveis.
Esse sistema, segundo Santolo, gera uma bolha onde o sucesso se mede pela quantidade de capital levantado e não pelo valor real criado. As estatísticas mostram que a grande maioria das startups financiadas por venture capital fracassam, e no entanto o modelo continua sendo apresentado como o caminho ideal. Para Santolo, isso é um erro fundamental que prejudica especialmente os empreendedores de regiões emergentes.
Diante dessa realidade, Santolo propõe uma alternativa concreta: o crescimento empresarial sustentável não requer ser milionário. Basta educação empreendedora de qualidade, recursos emocionais para enfrentar a incerteza e ferramentas básicas de negócios aplicadas dentro de ecossistemas colaborativos. A tecnologia democratizou o acesso a quase tudo o que é necessário para empreender.
A conversa se amplia para uma reflexão mais profunda sobre o poder individual na era digital. Santolo observa que a sociedade moderna confere aos indivíduos um poder sem precedentes graças às ferramentas digitais. Qualquer pessoa pode criar conteúdo, construir uma audiência, lançar um produto ou mobilizar uma comunidade a partir do seu telefone. No entanto, as pessoas não gerenciam esse poder de maneira responsável.
"Não associamos poder a responsabilidade e serviço", conclui Santolo com uma frase que resume toda sua filosofia. O poder que a tecnologia nos dá deveria estar acompanhado de um compromisso com os outros, com a comunidade, com o impacto positivo. Santolo defende um modelo de crescimento colaborativo que beneficie a todos, não apenas os que estão no topo da pirâmide.
A entrevista se encerra com um convite a repensar o empreendedorismo não como uma corrida individual rumo à riqueza, mas como uma ferramenta coletiva de transformação social. Para Santolo, o verdadeiro empreendedor é aquele que usa suas capacidades e recursos para resolver problemas reais, criando valor compartilhado no processo.
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